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adão e ivo
2025, duas cortinas compostas de fuxicos e bordado sobre filó montadas em varão sobre chassi de madeira e linhas; 200 cm  x 85 cm

Bordo dois corpos em linha vermelha sobre o véu. Adão, à esquerda, abre os braços e olha para baixo — corpo que reconhece a terra, o peso, a origem. Ivo, à direita, também se abre, mas ergue o rosto e o peito — corpo que se oferece ao ar, à travessia. Entre os dois, o intervalo vibra: um espaço de respiro onde o fio vermelho é também o ar que sustenta. O vermelho é sangue, lembrança e costura. Penso em Eli Heil e em seu Adão e Eva, que guardavam o portal do Mundo Ovo. Quando a estrada avançou e o governo demoliu as esculturas, Eli reagiu com o gesto da criação ferida: recolheu os fragmentos, pintou-os de vermelho e transformou os destroços em um cemitério de Adão e Eva. A ferida virou rito, o sangue virou permanência. Meu trabalho nasce desse mesmo impulso de resistir. O vermelho que em Eli denunciava, em mim costura. Substituo o mito: onde havia Adão e Eva, há agora Adão e Ivo — dois homens, dois gestos, dois respiros. Não procuro fundar outro mundo, mas abrir passagem para um modo de estar junto, um nascimento sem culpa, tecido pela diferença e pelo desejo. A cortina de fuxicos é fronteira e convite. Pende como corpo têxtil entre dentro e fora, abrindo-se como um portal. Cada retalho guarda o tempo de uma mão, a memória de um toque. O olhar atravessa e é atravessado. Entre a queda de Adão e o voo de Ivo, há o fio que sustenta o invisível. Penso que Eli fez do cemitério um nascimento; eu faço do nascimento um limiar. Entre o chão e o céu, Adão e Ivo seguem comigo, bordando o mundo pela fresta do véu.

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