cidades pós-pandemia: colocar no horizonte uma obra em comum

Exposição coletiva - Museu da Escola Catarinense (MESC), Florianópolis, SC - 2022 

curadoria de Paolo Colosso, Luiza Mattos e Simone Bobsin

[trabalhos expostos: (1) autorretrato pandêmico e (2) corpos fatiados na cidade assintomática]

 

Temos aqui um elogio às cidades como artefato coletivo, lugar do encontro com presença, das interações efetivas, da abertura e das possibilidades de um “viver juntos”. O período de pandemia e isolamento nos fez perceber que “estar com” é fundamental. Não há estabilidade emocional, saúde mental nem crescimento individual duradouro sem presença, sem reforços recíprocos, sem vínculo e toque. Todo vínculo necessita, algum momento, cruzar o olhar sem estar separado por uma tela. Toda vida social necessita, em algum momento, ir pra rua. Todo tecido social precisa, algum momento, retomar  sua materialidade.

 

Na cidade os corpos se alocam próximos uns dos outros, o que intensifica as trocas – mercantis e não-mercantis – e também os choques. Não por acaso, a cidade foi historicamente lugar das formas de sociabilidade capazes de abrigar a pluralidade, de acelerar a inteligência coletiva, forças produtivas e transformações.   

 

A cidade pode ser um artefato social para reverter conjunturas difíceis. Se estão fortes os passadismos rancorosos, truculentos, asfixiantes, as artes e experimentações estéticas têm condições de criar zonas de oxigenação, abrir espaços conectivos,  confluências que permitam respiro.  

 

Como esta exposição é elaborada ainda sob efeitos da COVID-19, com alto grau de indefinição, é necessário pensar que nosso manifesto pelo viver juntos não prescinda de cuidados. O trauma coletivo da pandemia pode ser aqui elaborado, absorvido e transformado   em poéticas, linguagens e suportes. A cidade se torna tema, mas também palco e parte do repertório das atividades.

 

Uma cidade aberta e densa pode contribuir para dinamizar a superação de tempos obscuros de crises sanitária, econômica, social e humanitária. Mas para tanto, precisaremos ser capazes de imaginar um futuro outro e ensaiar desde já, desde onde estamos, as formas de vida que desejamos enquanto sociedade.

 

 Paolo Colosso