corpos litúrgicos
2025, linhas, bordado, costura e amarrações em diferentes tecidos, cabide e flores artificiais; 155 cm x 40 cm
Um corpo se delineia em linha vermelha: arqueiro em tensão, mártir atravessado, caçador e ferido. São Sebastião e Oxóssi se encontram no mesmo gesto — a flecha que fere e a flecha que protege transformadas em agulha, costura e cicatriz. O tecido é pele exposta, atravessada por fios que sangram e ao mesmo tempo sustentam; zonas de sutura guardam memórias e feridas, lembranças inscritas nos corpos dissidentes. Suspensa, a obra habita o intervalo entre a ausência e o rito. Pende como vestimenta à espera de um corpo que já não está, ou que se esconde nas dobras do ar. O gesto de suspensão é também oferenda — aquilo que não repousa, mas se oferece em silêncio, como se o espaço ainda respirasse a presença de quem o habitou. Bordar torna-se liturgia: o ponto é reza, o fio é flecha, o nó é cicatriz. Cada gesto repete o esforço da permanência, o milagre da sobrevivência. O erotismo, aqui, não é adorno nem confissão — é força crua que se borda em ferida, devolvendo ao olhar a potência de um corpo que resiste, mesmo vulnerável, mesmo atravessado. Esses são corpos litúrgicos — corpos que fazem da vulnerabilidade um gesto de fé, da ausência uma forma de presença, da ferida um lugar de passagem. Corpos que, ao serem suspensos, continuam a rezar em silêncio.









