ensaios para permanecer no chão
2026
Antes suspensa, a linha procurava corpo, descia, alongava-se, torcia-se no espaço como se ainda não soubesse onde permanecer. Agora aproxima-se do chão e, ao tocá-lo, não repousa simplesmente sobre ele. Dobra-se, retorna, atravessa-se, sustenta e é sustentada. Pouco a pouco, produz seu próprio lugar. Ensaios para permanecer no chão constitui uma série, feita de variações em torno dessa aproximação. Cada trabalho retoma, desloca e reinscreve a pergunta por uma presença que não se resolve de uma vez. O que muda de escala, de apoio, de orientação ou de tensão não abandona a investigação comum: são modos distintos de experimentar como um corpo pode constituir lugar sem se estabilizar inteiramente nele. Tecidos, filó, materiais diversos, amarrações e costuras envolvem uma estrutura que não se oferece inteiramente ao olhar. A matéria aparece e desaparece sob a membrana; volumes se aproximam, afastam-se e tornam a se encontrar. A linha vermelha percorre essas junções sem ocultá-las: sutura, ata, insiste. Cada ligação permanece visível como condição provisória de um corpo que continua sendo feito. Já não se trata apenas de uma linha que procura adquirir corpo. Ao curvar-se sobre si mesma, ela delimita vazios, abre passagens, ergue arcos, circunscreve interiores. O desenho abandona a superfície para tornar-se espessura. Corpo e espaço começam a acontecer juntos. Na série, essa espacialização não se fixa numa forma única. Reaparece como tentativa, deslocamento, diferença. Cada peça experimenta uma maneira própria de tocar, apoiar, abrir, elevar, dobrar ou atravessar o chão. A unidade não está na repetição de uma configuração, mas na insistência de uma mesma questão. Tocar o chão, aqui, não significa encerrar a suspensão. A instabilidade permanece inscrita em cada torção. Fazer chão talvez seja justamente sustentar essa condição: encontrar apoio sem cessar o movimento, adquirir presença sem tornar-se definitivo. O corpo não chega, ele ensaia permanecer.








