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Minha pesquisa artística se constitui no encontro entre arquitetura, corpo e cidade, tomando o espaço habitado como campo de experiência, investigação e criação. Interessa-me aquilo que se dá no contato: entre corpo e superfície, matéria e memória, gesto e espaço, presença e desaparecimento. É nesse campo de relações que persigo a linha-corpo-que-desenha, não apenas como traço visível, mas como gesto que percorre, toca, recolhe, atravessa, amarra, suspende e inscreve espacialidades. Essa linha nasce da experiência corporal do espaço. Caminha pela cidade, encontra seus pavimentos, frestas, rugosidades, arquiteturas, restos e silêncios; aproxima-se das superfícies e deixa-se afetar por elas. O desenho, assim, já não se restringe à produção de uma imagem: torna-se operação espacial e modo de presença. Pode surgir como traço, textura, dobra, costura, amarração, suspensão, acúmulo ou disposição de corpos e matérias no espaço. Mais do que representar a cidade, interessa-me estabelecer com ela situações de contato nas quais corpo, matéria e lugar possam mutuamente inscrever-se. Compreendo a cidade como uma espessura sensível e temporal, constituída tanto por aquilo que se apresenta imediatamente quanto por vestígios, sobrevivências e memórias aderidas às suas superfícies. Caminhar, tocar, recolher e deslocar fragmentos dessa experiência tornam-se procedimentos de uma pesquisa interessada nas formas pelas quais o espaço guarda presenças. O chão assume, nesse percurso, uma importância particular: superfície sobre a qual os corpos se apoiam e se deslocam, mas também campo de inscrição, arquivo precário e matéria de uma cidade continuamente atravessada por ações, apagamentos e reaparições. Minha produção se organiza a partir de procedimentos do desenho que se desdobram em diferentes materialidades e situações, aproximando-se da instalação, da prática têxtil, da coleta de texturas, da intervenção e de ações realizadas no espaço público. Tecidos, linhas, cordas, superfícies translúcidas, objetos e materiais encontrados ou apropriados aparecem não como suportes exteriores ao desenho, mas como extensões de seus modos de operar. A linha pode abandonar a superfície bidimensional, ganhar espessura, tornar-se corpo, produzir tensão, envolver volumes, ligar matérias ou permanecer suspensa no espaço. Nessas operações, interessa-me especialmente aquilo que resiste a se desprender: memórias, vestígios, inscrições e formas de presença que persistem mesmo quando submetidos ao deslocamento, à transformação ou ao desaparecimento. As obras se organizam menos como respostas do que como proposições de experiência. Procuram instaurar situações em que caminhar, aproximar-se, atravessar, contornar, deter-se ou escutar participam da própria constituição do trabalho. O espaço deixa, então, de ser cenário ou recipiente para tornar-se matéria ativa da obra; do mesmo modo, o corpo não comparece como figura representada, mas como medida sensível, presença e potência de relação. Minha prática desenvolve-se por séries, derivações e retornos. Procedimentos, materiais e imagens reaparecem em temporalidades distintas, carregando transformações produzidas pelo próprio percurso da pesquisa. Por isso, não procuro propriamente esgotar a linha-corpo-que-desenha, mas acompanhá-la em suas sucessivas metamorfoses. Cada trabalho constitui uma interrupção provisória dessa investigação: momento em que a linha encontra uma superfície, um corpo, uma memória ou um lugar e, ao tocá-los, volta a perguntar de que maneira habitamos, marcamos e somos marcados pelos espaços que atravessamos.

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