o que ainda procura corpo
2026, correntes plásticas, filó e intervenções têxteis com torções, amarrações e fuxicos; instalação suspensa; dimensões variáveis
Uma linha desce do teto como se ainda estivesse em processo de mutação. Não cai abruptamente, escorre lentamente pelo espaço, torcendo metal, transparência e ar até produzir uma espécie de corpo instável, suspenso entre contenção e desaparecimento. A corrente sustenta a memória do peso, daquilo que prende, ancora e atravessa o tempo sem desaparecer completamente. O filó, ao contrário, dissolve bordas, espalha pequenas névoas sobre a matéria e transforma dureza em respiração. Juntos, deixam de existir como objetos reconhecíveis e passam a operar como presença vibrátil, quase animal, quase vegetal, atravessada por luminosidades febris, plumagens imaginárias e restos de uma fauna noturna que parece ainda rondar a ilha. Em certos pontos, a estrutura lembra cristas desfeitas pelo vento, ninhos interrompidos, nervuras salgadas, asas precárias ou criaturas suspensas num estado contínuo de aparição. Pequenas expansões laterais brotam da torção como bolsas de ar, membranas frágeis ou órgãos provisórios que insistem em permanecer abertos ao delírio, ao sonho e à vertigem das cores já transformadas pelo tempo. A superfície já não separa interior e exterior. Tudo pulsa como se a matéria tivesse absorvido lentamente resíduos de quintais úmidos, ferrugem, maresia, festas, galos solares e noites azuis atravessadas por desenhos incessantes. O vermelho surge discretamente como cicatriz interna, não como explosão cromática, mas como permanência silenciosa de algo que ainda insiste em respirar sob as dobras. Ao tocar o chão, a linha perde tensão e começa a escapar pelo espaço, recusando qualquer encerramento definitivo. Entre sombra, transparência e desgaste, emerge uma presença ambígua, como se antigos seres fantásticos da cidade continuassem tentando encontrar corpo através da torção lenta dos tecidos, das correntes e do próprio ar.






